
A primeira vez que ouvi falar de Inma Serrano foi pela minha primeira namorada, uma espanhola que se encontrava em Lisboa a fazer Erasmus. Na altura, encontrava-me cheia de dúvidas e receava que alguém descobrisse o meu maior segredo. Apaixonei-me por ela só dois meses depois de a conhecer, mas assim que comecei a achar-lhe alguma [des]graça não recuei e estava disposta a debater-me por tudo o que tinha posto de lado, a minha felicidade entre muitas outras coisas.
Não sabia da sua homossexualidade nem ela tão pouco da minha. A nossa relação numa espaço de dois meses e meio foi feita de avanços e recuos, estávamos as duas na corda bamba e receávamos levar com um balde de água fria. Nunca me tinha declarado a nenhuma rapariga e a simples ideia atemorizava-me. Creio que só com ela passei a linha do real e entrei num quotidiano e numa intimidade que nunca tinha tido com outra amiga. De dia para dia estávamos cada vez mais próximas uma da outra e já não havia volta atrás, eu estava mesmo decidida a andar para a frente.
Tínhamos as duas uma paixão por canta-autores e eu estava a adorar conhecer Luís Aute, Ismael Serrano, Tontxu, Pedro Guerra, Sabina, Sílvio Rodriguez, Chavela Vargas, entre muitos outros. Uma tarde, pôs a tocar uma música e explicou-me palavra por palavra. A letra era triste e falava de um amor sem rede alimentado-se de uma ansiedade em vão. Na altura, sabia perfeitamente o que isso era, toda a minha vida ou uma boa parte dela reflectia essa mesma ansiedade escondida e perdida, em vão... Nessa tarde, percebi que tinha sido descoberta, as mãos e os lábios tremiam-me e tive medo, muito medo.
Inma Serrano é uma canta-autora que ficará sempre na minha memória, mas ao contrário da letra do Acabaré, já não vivo um amor sem rede e posso dizer à Rita o quão a amo sem medos, sem receios.

O primeiro álbum desta cantautora norte-americana pode ser facilmente considerado um dos melhores álbuns de 1996. A bela voz de contralto de Apple juntamente com os arranjos musicais baseados num trio de piano, baixo e percursão aliados a outros tipos de instrumentos tais como o vibrafone, o chamberlain (um instrumento raro, criado nos anos 60 e descrito como um "proto-sitentizador" ou um "70-voice tape loop") e um quarteto de cordas produzem uma sonoridade única. Mas a qualidade do trabalho de Apple não fica por aqui. As letras, para além da expressão de uma série de sentimentos muito fortes, como a raiva e a tristeza, estão repletas de poesia, imagens e sugestões. É possível constatar por vezes uma ligação clara entre música e palavras, ou seja, uma combinação nítida entre estrutura e conteúdo. O trabalho de Apple poderia ser comparado a alguns trabalhos já feitos por Tori Amos. Porém qualquer tipo de comparação a outro artista não seria na realidade justa, porque Fiona Apple, que compôs as canções de Tidal com 18 anos, apresenta-nos um nível de maturidade musical que muitos artistas séniores ainda anseiam alcançar. Por isso fica o convite para explorar este álbum a quem ainda não o conhece.
Posteriormente, Apple lançou em 1999 When The Pawn (abreviatura de When The Pawn Hits The Conflicts He Thinks Like A King, What He Knows Throws The Blows When He Goes To The Fight And Hell Win The Whole Thing Fore He Enters The Ring, Theres No Body To Batter When Your Mind Is Your Might, So When You Go Solo, You Hold Your Own Hand, And Remember That Depth Is The Greatest Of Heights, And If You Know Where You Stand, Then You Know Where To Land, And If You Fall It Wont Matter, Cuz Youll Know That Youre Right, título que fez com que este álbum entrasse no Guiness Book of Records por ser o título de álbum mais longo da história). Este trabalho confirma o seu talento e a qualidade da sua música, apesar de as letras não fazerem sempre verdadeira justiça ao trabalho anterior.
Aguarda-se desde então um novo trabalho de Fiona Apple. Informações correm que já há um novo álbum pronto desde Maio de 2003 intitulado Extraordinary Machine, mas que não foi lançado por não ter sido considerado suficientemente comercial pela editora discográfica Sony Music. Segundo o produtor Jon Brion, dizem algumas fontes, falta-lhe um single de lançamento 'óbvio'. Por esse motivo foi lançada uma campanha chamada Free Fiona com o objectivo de garantir que o álbum sai para as ruas. Nesta campanha é pedido para tomar a acção original de enviar para a Sony Music maçãs reais ou de plástico, ou qualquer outro documento ou material alusivo a maçãs, como forma de protesto.
Para mais informações sobre o trabalho de Fiona Apple podem visitar o seu site oficial.
O João escreveu sobre a Björk. Nestas linhas que me foram dadas para responder ao desafio de dizer algo sobre um artista particularmente relevante, escolhi uma banda cujo líder, Thom Yorke, é uma espécie de versão masculina da islandesa Os Radiohead. Tal como ela, estes britânicos têm um forte sentido estético, que aplicam às suas canções e vídeos. Basta pensar no vídeo de Street Spirit (fade-out), ou na iconografia da banda, os famosos bears. Tal como Björk, gostam de se reinventar, ao ponto de quase não tocarem as músicas dos primeiros álbuns, por acharem que já não são a mesma banda. Para terminar esta Icelandic connection relembro o dueto entre Thom e Björk que ficou para a posteridade Ive seen it all, em Selma's Songs.

Esta banda, de todas as que foram vitais na minha adolescência, foi das poucas que continuei a ouvir regularmente. A razão desta permanência talvez tenha que ver com o progressivo (re)conhecimento da ideologia da banda, muito depois de ter tomado gosto ao som descontextualizado. Desde a militância agressiva, corrosiva e céptica de Yorke, passando pela recusa do caminho fácil de repetição do êxito Creep, o conteúdo fascinou-me. Acima de tudo, foi com eles que aprendi a diferença entre a música que nos é imposta pela MTV, pelas rádios e pela publicidade e toda essa cadeia alimentar. Foi com OK Computer que compreendi que o popular e divertido não tem de ser sinónimo de fútil, medíocre ou banal. Com Kid Aaprendi a tolerar e a amar formas radicais de musicalidade. Foi toda uma escola, como seguir o white rabbit para um mundo novo.
Para que este post não esteja completamente deslocado da temática do Renas, posso dizer que mais tarde até fiquei a saber que Thom e o vocalista dos R.E.M., Michael Stipe, tiveram uma fugaz relação.Termino com deprimidas mas brilhantes palavras de Thom Yorke sobre a música que citei acima, roubadas da página 314 do livro Aquariofilia, de Luís Soares:
(...) «Street Spirit» é sobre olhar o diabo olhos nos olhos e saber, façamos o que fizermos, ele vai ter a última palavra, a última gargalhada. E isto é real, é verdade.
Será?
Ps. Obrigado ao Pagan e a todas as Renas pelo convite de poder escrever neste blog.
Já tivemos Abba, Maria Bethania, Placebo e Björk. Os senhores que se seguem são os Radiohead!
João O

Falar de Björk é fazer uma retrospectiva das minhas bandas sonoras. Jáo fiz sobejamente neste blog. Então resolvi, não falar tanto da Björk e da sua carreira, mas mais da relação entre a minha vida e as canções da Björk.
A relação começa em 1994, quando comecei a dar por ela. Já a tinha ouvido antes e ouvido também algumas coisas dos Sugarcubes, onde a Björk pulou da Islândia para o mundo. She went global! Bem, nesse tempo, começava a tomar consciência do mundo, começava um acordar das infâncias passadas e a querer sair do mundo conhecido. É nessa altura que a Björk me ganha como admirador da sua música. Electrónica, pop, dançável... mas ao mesmo tempo capaz de nos fazer sonhar.
Em 1995, universidade, uma cidade nova, um mundo novo... And I was a Hunter. A chegada a Lisboa marca uma nova forma de me posicionar face ao mundo. Éramos muito jovens, muito loucos, tínhamos ânsia de modernidade e futuro. Achávamos tudo isto, pequeno demais, paroquial demais. Mas no entanto, comíamos a cidade, no vórtice de novas ideias, novas pessoas, novos mundos. Vivíamos o mundo intensamente e em busca de algo sem poeira, sem tempo, sem passado.
O concerto de 1997 no Coliseu foi um marco desses tempos. Tinha um exame no dia seguinte, but who would give a fuck about exams? She was here.
Passado uns tempos, chegou Homogenic. Que é um pouco a consagração de uns tempos de ânsia pelo novo, de reinvenção. Na altura, já menos ávido de mundo, havia uma certa segurança emocional dentro daquelas paredes sonoras. Apesar da explosão de Pluto, a seguir teremos sempre All is full of love. E lembro-me de começar a acreditar no amor nessa altura.
É já recentemente, que surge a clareza do Vespertine. Em tempos de calma, de produção profissional já mais intensa, e que vem trazer um universo novo de sons e imagens. Podíamos agora serenar, tranquilizar-nos, dedicar-nos a uma introspecção mais detalhada. Vespertine simboliza o triunfo do particular sobre o geral, o pensamento voltado para dentro, o mundo interior. Sem as banalidades óbvias de um setting new age, podíamos tirar o tempo para reflectir sobre nós mesmos.
Pedalling through the dark currents, i find an accurate copy, a blueprint of the pleasure in me,
E vivemos meses, anos, com esta imagem. E fomos felizes! Lembro-me de a ver em Paris e no Meco e de suspeitar que a mudança vinha aí.
E chegou com Medúlla, cheia de sons fortes, crus, em que se regressa a um tempo anterior, para perceber como podemos reconstruir-nos de novo. Porque a música da Björk é o zeitgeist, o espírito do tempo, a mudança. A inovação. E afinal não somos nós essas mesmas mudanças?
E é também ao som de Björk, que penso a pessoa que mais gosto no mundo, porque... his embrace, a fortress/it fuels me and places/ a skeleton of trust/ right beneath us /bone by bone/ stone by stone
Por isso só posso agradecer à Björk estes cenários com que me ajuda a pensar os meus dias. E pela ânsia do que ainda está para vir.
João O
P.S.: Este nós é um sujeito indeterminado e refere-se à minha interacção com os meus significant others.

Há sempre uma canção que me lembra qualquer coisa, e qualquer coisa que me lembra uma canção. A primeira coisa que faço ao entrar no carro é ligar o rádio, durmo e acordo com música. Muitas vezes levo música para as minhas aulas e até gramática ensino com música. Dos meus favoritos fazem parte coisas mais antigas como Pink Floyd ou os Moody Blues, mas tb muita música dos anos 80, dos Depeche Mode aos The Cure, e algumas paixões bem recentes como Placebo ou Muse.
Placebo foi-me apresentado pela minha filha, na altura com os seus 13/14 anos. Gostei imediatamente do ar frágil e da voz tão característica do Brian Molko, perdi-me com a extraordinária "Without You I'm Nothing", talvez a melhor love song que já ouvi. Mas foi ao vivo no Coliseu de Lisboa que me tornei incondicional... a miuda era ainda muito nova para ir sózinha e lá fomos as duas. Fiquei rendida: começaram timidamente, mas aos poucos foram enchendo o palco e a sala toda, apenas 3, sem grandes parafrenálias, mas com um som espectacular e uma emoção que chegou ao rubro quando o Brian chorou a cantar "My Sweet Prince"... arrepiante, comovente, belo. Arrepiante uma plateia inteira a cantar com eles, quase desconhecidos, mas poderosamente cativantes.
"come back to me a while/change your style again/come back to me a while/change your taste in men" (Taste in Men);
"i was never faithful/and i was never one to trust/borderlining schizo/and guaranteed to cause a fuss/i was never loyal/except to my own pleasure zone/i'm forever black-eyed/the product of a broken home" (Black-Eyed);
"if you deny this/then it's your fault/that God's in crisis/he's over" (Passive Aggressive)
Daí para a frente foram crescendo, depois de "Placebo" e "Black Market Music" fizeram-nos esperar quase 3 anos pelo seu "Sleeping with Ghosts", e direi que valeu a pena a espera. Cá em casa andamos a ouvir bastante o último "Once More With Feeling" que reune os singles de 96 a 2004, que foi uma das minhas prendinhas de aniversário e que inclui uma versão da "Without You I'm Nothing" com David Bowie. Podem saber mais sobre Placebo aqui.
PS.: Diz-me a minha filha que me esqueci de salientar que a banda é composta por um gay (Stefan Olsdal), um bissexual (Brian Molko) e um hetero (Steve Hewitt) e que
"Stand up for yourself. Never be ashamed of who you are. Chase your dreams."
são palavras de Brian Molko dedicadas aos seus fãs.
Pandora (com a ajuda preciosa da minha sweet Careenin)

Eu só posso escrever qualquer coisa epidérmica, de tão intensa é a forma como a Maria Bethânia me atravessa a boca. Às vezes dou por mim a gritar o Imitação da vida de uma ponta à outra. Normalmente quando lavo a louça ou me esqueço que a pele dos dedos começou a enregelar e o banho já demora outro tempo. Na verdade, eu bem que gostava de poder conseguir escrever sobre a Maria Bethânia qualquer coisa que não me saísse directamente da carne e se prostrasse num espelho que me obriga a pensar. Deveria; gostava; pretendia... mas não consigo. Ouço-a de cá de dentro como se fosse uma entidade à parte; inconformada. Como se fosse um grito de alerta para uma qualquer situação que ainda desconheço. Não foram poucas as vezes em que comecei a cantar a Maria Bethânia para me salvar de qualquer coisa.
Quando eu e a minha irmã éramos bem novinhos descobrimos os álbuns dos ABBA, que os nossos pais tinham no meio de outras preciosidades de vinil. Depressa ficámos viciados e não largávamos o gira-discos, cantarolando no nosso melhor portinglês. Era uma alegria, e quando surgiram os CDs apressámo-nos a comprar os nossos hits favoritos.
Os suecos Annafrid Lyngstad, Benny Anderson, Bjorn Ulvaeus e Agnetha Faltskog formaram os ABBA em 1973, ganhando grande destaque ao vencerem o Eurofestival da Canção um ano depois, com a canção "Waterloo". Em 1982, quando o grupo chegou ao fim, já tinham vendido mais de 200 milhões de álbuns, e certamente que venderam outros tantos milhões até hoje.
Podemos dizer que os ABBA são pimba, e é verdade em certa medida. Os videoclips são absolutamente kitsch, mesmo para a altura podiam ter sido mais originais mas acabavam por ser apenas material para acompanhar a música. Enfim, não se pode fazer tudo bem, não é? A música sim, é bem boa, conheço cerca de 80 e tal músicas e posso dizer que são poucas as de que não gosto. O que sempre apreciei neste quarteto foi a variedade de temas e de sons que usavam, conseguindo ao mesmo tempo manter aquela "aura" que ospermitia identificar. Gosto muito da voz da Celine Dion mas se ouvir mais uma canção lamechas sobre o amor, vomito. Com os ABBA temos uma enorme escolha entre temas, profundidade e dançabilidade. Canções como "Dancing Queen", "Voulez-Vous" e "Thank You For The Music" são muito populares ainda hoje e ficam facilmente no ouvido, mas há bastantes em cuja letra e arranjos musicais vão mais além, e que não são mesmo nada pimba. Quem duvidar que ouça "Eagle", "The Visitors" ou o também muito popular "Fernando". Isto para não falar das vozes das intérpretes, que não sendo divinas são bastante boas. O Benny e o Bjorn podem não ter grandes vozes mas foram os grandes responsáveis pelo carácter melódico distinto do grupo.
Outro facto curioso é o número de bandas de tributo ou relacionadas com os ABBA, como os ABBAUK, FABBA, A'Teens, Bjorn Again, ABBA Magic, ABBA Forever
e ainda outras tantas! Garanto-vos que é divertido ver qual dos grupos consegue capturar da forma mais pimba o look dos originais.
Para terminar, recomendo, apesar de também ser relativamente conhecida, a canção "Gimme! Gimme! Gimme! (A Man After Midnight)", a minha favorita desde sempre. Sim, já gostava desta canção antes de saber que era gay... seria um sinal?
Damos ínicio a uma série de contribuições de bloggers que convidei para nos falarem dos seus/suas músic@s. Será a prenda de natal do Renas para quem nos lê, dando assim umas sugestões e explorando o universo musical. Assim a cada dia um texto de um@ blogger sobre música aguarda-vos aqui no Renas. Começamos pelo primeiro convidado que me respondeu, o Zun. Para todas e todos, um bom som!
João O
P.S.: Solicita-se a quem ainda não mandou os textos que o faça o mais depressa possível...PLEASE