novembro 16, 2004

Desiludir


Olá Dra. venho aqui ao seu consultório virtual porque nem tudo na minha vida corre como desejava.

Sou um rapaz de 24 anos, acho-me engraçado fisicamente, sou bem-disposto e considero-me culto e inteligente q.b. Não me faltam elogios, tanto ao físico como ao psicológico, mas as minhas relações sempre foram muito curtas e pouco intensas, por vários factores. O que me preocupa é mesmo o sexo. Comecei a conhecer outros gays por volta dos 18, hoje tenho 24 e só tive relações sexuais umas 3 vezes, sendo que duas delas se resumiram praticamente a masturbação mútua. Nunca consegui penetrar nenhum dos meus parceiros, creio que por nervosismo e por não sentir verdadeira atracção por eles. Preocupa-me este meu nervosismo, este receio. Já podia ter tido sexo se quisesse, todos sabemos que é fácil e que nem é preciso ser giro ou inteligente para o conseguir. Mas nunca quis, não assim. Acho que tenho medo do sexo, tenho medo de não conseguir a penetração, talvez tenha medo de ser rejeitado pela minha pouca experiência e pelo tal nervosismo. Por um lado queria esperar para encontrar alguém de quem gostasse mais a sério, para que as coisas corressem melhor, por outro também tenho medo que uma possível relação venha a ser prejudicada por tudo isto. Não sei se tudo o que escrevi faz sentido como uma questão para este consultório, ou se é mais um desabafo, mas obrigado na mesma pelo tempo concedido.

Resposta

Caro leitor,

A situação que nos expõe de uma forma tão transparente é muito comum. Sei que este facto não destrói as suas ansiedades, mas espero que possamos retirar-lhes um pouco da intensidade no decorrer do nosso comentário. Provavelmente, já mudou algo em si ao escrever-nos.

Pela forma como se apresenta, percebo que reflecte sobre a sua vida e os seus comportamentos. Aponta especificamente os seus medos e indica-os de forma muito clara. Bem sei que este é um meio seguro para o fazer, pois não será criticado, mas o facto de conseguir fazê-lo leva-me a pensar que, mesmo que os seus receios se tornem realidade, encontrará uma forma inteligente para lidar com a situação. O que quero dizer é que apesar do medo de perder a erecção numa situação em que lha pedem não será para si um momento infeliz ou traumatizante. Acha que o é para todas as outras pessoas que têm relações sexuais? Acredita que todos os homens em todas as relações sexuais conseguiram ter sempre erecções adequadas? Não acredite.

Querer ter uma relação sexual, ter medo de a ter, precisar de uma pessoa amada para vivê-la e ter receio de destruir essa relação afectiva por uma situação sexual mal sucedida é uma pescada de rabo na boca. É uma partida que está a pregar a si próprio para não avançar para a realidade. Só saberá o que acontece se tentar. Quanto mais adiar, mais constrói medos e barreiras à experiência.

Vamos imaginar que tem a erecção que pretende. Esse momento torna-o diferente daquilo que é? Será por isso que a relação sexual é bem sucedida? Que outros aspectos poderão correr bem? Que outras necessidades tem uma relação sexual para além da erecção? Será que depois de uma erecção bem sucedida tem maiores probabilidades de sucesso numa relação afectiva com essa pessoa? Que outras contribuições pode dar a uma relação afectiva bem sucedida para além da erecção?

Imaginemos agora que a relação sexual não ocorre como espera. Acontece que não penetra o seu companheiro como pretendia e como ele deseja. Ele pede insistentemente que o faça com uma expressão de raiva, zanga e desilusão. O que diz essa situação de si como pessoa? Poderá retirar conclusões? Como lidar com essa situação, caso aconteça? Será o humor uma solução adequada para si? Que outras encontra?

Bombardeei-o com questões que poderão ajudá-lo a desdramatizar os receios e a perspectivar, de formas mais adaptadas, a possibilidade de sucesso ou de insucesso na relação sexual. O objectivo não é encontrar a resposta certa para cada uma delas, mas sim abrir-lhe novos caminhos de possibilidades e esperança de sucesso. Já se imaginou a ter dificuldade em penetrar alguém e obter um sorriso, um beijo e um abraço caloroso cheio de cumplicidade?

Muitas felicidades!

Maria Rena

Publicado por renaseveados em 09:45 PM | TrackBack

novembro 02, 2004

Tugofilia


Estimada doutora Renas:

Em primeiro lugar desculpe meu deficiente conhecimento da língua portuguesa.

Quisesse comentar-lhe meu caso. Já faz muito tempo que desejo namorar em Portugal. Mas minhas tentativas são em vão. Não sei que falha exatamente, quiçá você me poderia ajudar.

Faço tudo: Vou a locais noturnos de suas cidades, às cafeterias mais concorridas, aos seus arraiais mais populosos, até a suas dunas mas coincididas, mas nada... o único que consigo é conhecer a militantes ou simpatizantes do PSD; a famosos personagens televisivos (totalmente desconhecidos para mim) que pretendem introduzir-me num carro em plena Avenida dos Aliados com destino indeterminado; a homens aos que lhes gosta vestir-se de mulher (eu que nao gosto nem de metrosexuais!); a homens aos que não preciso perguntar-lhes a idade porque levam “Angola 1973-1975” escrito no braço; a betinhos que não querem ser vistos engatando por medo a que lhes chamem 'puta', ... e o que é ainda pior, a gajos que me confundem com uma mulher espanhola e se afanam por falar-me num castelhano hilariante (tanto como o portugués que eu lhes falo).

Doutora Renas: Não existem verdadeiros homens portugueses, assumidos, bons, decentes e de esquerdas? Onde os posso encontrar?

Depois de várias tentativas frustradas estou desesperada. Poderei em algum dia desfrutar da enriquecedora experiência de viver um romance trans-fronteiriço?

Faltaba dizer que tenho todo preparado: Notícia

Tugófila no Alenminho.

Resposta
Car@ Leitor/a,

Envia-nos uma questão associada a desencontros afectivos. Pelo que percebemos do seu e-mail, pretende conhecer um homem em Portugal com características específicas. Deverá ser verdadeiro, assumido, bom, decente e de esquerda. Apesar das características que enumera serem bastante subjectivas, podemos afirmar que este perfil de homem, que certamente encontrará além fronteiras, não é raro em Portugal. Deverá ser tão fácil encontrá-lo por cá, como por Espanha, França ou em qualquer outro canto europeu… aliás, como outros homens com diferentes conjuntos de características.

A sua questão centra-se principalmente no “Onde?” deixando transparecer alguma desilusão e pouca esperança para os resultados desta busca. Conhecer as pessoas certas para nós depende principalmente de nós e, naturalmente, de alguma sorte. Sendo que a sorte não é um factor que possamos controlar, podemos trabalhar na nossa participação para esse encontro tão esperado.

Embora @ sinta, apreensiv@ não deixo de acreditar que conseguirá atingir o sucesso. Confio também na sua criatividade para encontrar novas formas de conhecer pessoas. Para além de todas as que referiu especificamente no seu e-mail, existirão outras. Isto é, ainda não fez tudo. Dou-lhe apenas mais duas formas de conhecer pessoas.

1. A forma clássica: recorrendo aos nossos amigos. Se temos amigos é natural que alguns deles partilhem os nossos interesses. Muito provavelmente o mesmo acontece com eles, ou seja, têm outros amigos que partilham os seus gostos e estilos de vida. Por exemplo, se pretende um homem de esquerda, poderá conhecer amigos dos seus amigos com as mesmas filiações políticas.

2. Outra forma, quase clássica, nos tempos que correm: a Internet. Na Internet, antes de conhecer pessoalmente as pessoas, pode conhecer os seus interesses e uma parte da sua forma de estar na vida. Relembro que o relacionamento via Internet com alguém é distinto do relacionamento com a mesma pessoa na vida real. De qualquer forma, o número de utilizadores deste meio é cada vez maior. Tem a possibilidade de frequentar salas temáticas onde se encontram pessoas com os mesmos interesses.

Para além destas haverá certamente outras formas de conhecer pessoas. Contamos consigo para dar largas à imaginação e descobri-las.

Relembramos que na vida não há pessoas perfeitas. A ideia mítica da alma gémea, do amor perfeito sem esforço é apenas isso, uma ideia. Não existe na realidade. Os relacionamentos humanos, nomeadamente os de natureza afectiva, são trocas, cedências, uma sucessão de adaptações e desafios. Todos estes desafios exigem trabalho e pró-actividade da nossa parte. Acreditamos em si para os vencer aquém ou além fronteiras.

Muito obrigada pela sua questão!
Muitas felicidades!

Maria Rena

Publicado por renaseveados em 06:13 PM | TrackBack

outubro 29, 2004

Sequestros Emocionais

Cara Maria Rena (ou deverá ser Dra.????)

Gostava de te perguntar qual a tua opinião acerca dos sequestros emocionais. Tendo a cair constantemente nessas situações e sinceramente sinto-me cansado. Gostaria de efectivar toda a teoria que tenho, mas não me faço cumprir e eis-me novamente sequestrado emocionalmente. E desta vez nem vale a pena. Até onde se pode ser masoquista e o que se pode esperar de um sequestrador?

Aguardo ansioso.

Resposta:
Caro leitor,

Agradeço a sua pergunta e congratulo-o por ser o estreante do nosso Consultório da Maria no Renas e Veados.

Refere-se várias vezes ao longo da sua questão a sequestros emocionais. Deverei assumir que se refere a situações em que se sente emocionalmente envolvido com alguém com grande intensidade ao ponto de desconhecer a forma de mudar a natureza ou força dessa relação?

A frase que revela a questão é a sua última pergunta: Até onde se pode ser masoquista e o que se pode esperar de um sequestrador? A sua pergunta assume que há outra pessoa que o sequestra emocionalmente, melhor, há outras pessoas, uma vez que a situação se repete. Imagine que passeia num jardim onde encontra três pessoas. Uma dela passeia, sente-se sozinha e olha as outras intensamente, com um olhar fulminante na busca de uma resposta. Outra, observa o olhar "sequestrador" da primeira e decide dar mais atenção às últimas flores de Outono. A terceira pessoa decide prestar atenção ao olhar fulminante e decide investir naquela pessoa que não conhece, mas que responde às suas necessidades de receber e oferecer afecto. A terceira pessoa decide ser sequestrada enquanto que a segunda pessoa rejeita o envolvimento.

Quero dizer que nós avançamos na vida de acordo com as nossas necessidades. Não são os outros que nos sequestram, nós tomamos decisões sobre as pessoas com quem nos envolvemos, sobre a atenção que damos e a que deixamos que nos ofereçam. Se o leitor se sente sequestrado, pedia-lhe que se questionasse sobre a forma como aí chegou. Qual a sua responsabilidade sobre esse sentimento? Qual a responsabilidade de outras pessoas? O que se repetiu nas situações em que encontrou os sequestros? O que poderia ter acontecido diferente? O que o impede de fazer diferente?

A sua questão relembra-me uma frase famosa de Saint-Exupéry, "És responsável por tudo aquilo que cativas." Não posso discordar mais desta afirmação, uma vez que não reflecte a realidade e que desresponsabiliza quem sente. Nós somos os responsáveis pelos nossos sentimentos, nós apenas. Temos sempre a oportunidade para a qualquer momento fazer um esforço e decidir mudar o que sentimos.

Muitas felicidades!

Maria Rena

Publicado por renaseveados em 11:34 PM | TrackBack

outubro 26, 2004

Consultório da Maria

O Renas e Veados tem o orgulho de apresentar: Maria Rena! Será a nossa psicóloga clínica especialista em temáticas sexuais e afectivas. Responderá profissionalmente às vossas questões na nova secção Consultório da Maria a inaugurar hoje!

A Maria é uma querida e tem este ar disponível e profissional criado pelo Zun, o nosso artista de serviço. De serviço estará ela também ao disponibilizar o seu email para que coloquem questões, dúvidas, curiosidades ou apenas para partilhar desabafos. Poderão encontrar a nova secção no canto superior direito da página inical do blog, sob o título Consultório da Maria. Atenção, este serviço prestado pelo Renas é para tod@s, sem excepção, gratuito e anónimo. Maria Rena reserva-se no direito de publicar apenas as questões e as respectivas respostas que considerar relevantes para o âmbito deste serviço.

Drocas

Publicado por renaseveados em 11:54 PM | Comentários (8)
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