dezembro 16, 2005

MAIS VALE 5 MINUTOS DE LENOIR, QUE UMA VIDA INTEIRA DA MÓNICA

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Na foto, o cantor de Blues J. B. Lenoir.

Sob a supervisão de Martin Scorsese (que assinou o primeiro episódio), a 2: tem passado uma série documental sobre a história do Blues, The Blues, que recomendo vivamente. Win Wenders realizou para Scorsese o segundo episódio, The Soul Of a Man, e nele o realizador alemão traçou a vida e a música de três dos seus artistas favoritos do género: Skip James, Blind Willie Johnson e J. B. Lenoir.

Comoveu-me particularmente a história do último, J. B. Lenoir, que morreu tragicamente em 1967 na sequência de um atropelamento em Chicago e à falta de tratamento adequado aos ferimentos que dele resultaram. Era um talentoso músico e, tal como muitos dos seus coetâneos, continuador das tradições musicais das comunidades negras do sul: Gospel, de carácter sagrado, e Blues, de carácter mais profano, mas ainda assim impregnados de uma imensa religiosidade. Lenoir teria sido uma verdadeira estrela não fosse ainda, e sempre, a segregação racial, que o impediu de ter atempadamente o respeito e o êxito que lhe estariam garantidos. A sua última profissão foi lavador de pratos.

Quando vejo por aí o furor que o livro de Maria Filomena Mónica tem tido entre nós, penso mesmo que o mundo anda às avessas. Não li e não tenciono ler a vida de uma «beta»; e mais: não o recomendo. A gigantesca campanha, mesmo daqueles que não a leram, em torno da primeiríssima autobiografia portuguesa, dá-me idoneidade para fazer a contra-propaganda. Daqui a uns anos o seu «Bilhete de Identidade» será tão importante como os livros da Corin Tellado, ao passo que Lenoir continuará vivo e a cantar-nos esse estado único de tristeza e revolta que pode ser resumida na palavra Blue.

Hetero_doxo

Publicado por renaseveados em dezembro 16, 2005 02:44 AM | TrackBack |
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Comentários

Caro Hetero-doxo, a argumentação do seu último parágrafo é, numa palavra, extraordinária. Tiro o chapéu à total ausência de preconceitos, à recusa em recomendar o livro apesar de não o ter lido, à autoridade moral de que se reveste para não o recomendar (sempre sustentada em argumentos de grande solidez, como seja a existência de um grande número de admiradores de "Bilhete de Identidade") e finalmente, à profecia relativa à não-canonicidade das memórias de Maria Filomena Mónica. Agradeço-lhe do fundo do coração e regozijo-me por ainda haver pessoas que sabem pensar. Este seu parágrafo é um dos momentos mais altos do Renas e Veados. Bem haja, Hetero_doxo!

Afixado por: Pôncio Palitos em dezembro 16, 2005 03:26 AM

Olá! Mudei de sítio e espero a tua visita.

Boas Festas.

Beijos

Afixado por: power em dezembro 16, 2005 12:31 PM

Caro Hetero-doxo a sua argumentação às vezes peca por simplista. Mas se quiser encontrar muitas e boas razões para nao ler o livro dispensável de uma historiadora dispensável,chamada Maria Filomena Mónica, vá até ao Blog de João Pedro George. wwww.esplanar.blogspot.com
A crítica é uma delicia e os argumentos certeiros. Ninguem já consegue aguentar parolas que ficaram deslumbradas por Oxford.

Afixado por: Vitorino Magnésio em dezembro 16, 2005 03:35 PM

Caro Vitorino, como se atreve a acusar o Hetero_doxo de simplismo? Repare que a argumentação dele até inclui um juízo contrafactual de fino recorte poético quando afirma peremptoriamente que Lenoir teria sido uma estrela e teria êxito e respeito garantidos se não tivesse sido uma vítima do racismo. Não acha que isto é de uma grande audácia intelectual? E note que o Hetero_doxo não tem, nem por sombras, nenhum do ressentimento que a esquerda radical (essa sim, simplista) nutre por pessoas louras, que estudaram em Inglaterra e que vivem na Lapa. Nunca, em momento nenhum do post, o Hetero_doxo sugere que há mais dignidade moral na arte de um lavador de pratos do que na prosa de uma «beta» (que não li, tal como não ouvi Lenoir). O Hetero_doxo é o meu herói! E se continua por este caminho, temos crítico literário, qual João Pedro George qual carapuça!

Afixado por: Pôncio Palitos em dezembro 16, 2005 04:11 PM

O Hetero_doxo é um crítico literário extraordinário. Não leu "Bilhete de Identidade" de Maria Filomena Mónica, mas consegue elaborar juízos acerca do mesmo. Como? Remetendo para o estatuto de "beta" da autora! No pólo oposto, o músico norte-americano Lenoir, com a sua "tristeza e revolta", produz uma obra imortal. Se este fosse um critério válido, Mário de Sá Carneiro e Florbela Espanca seriam melhores poetas do que Fernando Pessoa.

Afixado por: C.P.E. Ribeiro em dezembro 16, 2005 05:01 PM

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