novembro 05, 2005

Oops! Coming out again

Sheryl Swoopes

Sheryl Swoopes, a atleta norte-americana da WNBA (a Liga de Basquetebol Feminino Americana)três vezes medalha de ouro olímpica de basquetebol, e a única mulher a dar o nome a um modelo de sapatilhas desportivas - as Nike Air Swoopes - fez há dias a sua saída do armário numa entrevista exclusiva à revista ESPN. A atitude da atleta reveste-se de um significado especial, não só por ser a mais proeminente atleta profissional a fazê-lo nos Estados Unidos, e numa altura alta da sua carreira, mas por já ter sido o rosto de uma campanha da WNBA enquanto estava ainda casada e grávida do seu único filho, destinada a contrariar o estereótipo popular de que as mulheres atletas da Liga seriam todas lésbicas, por serem atletas. Uma ideia que a própria Swoopes não deixou de desmistificar na referida entrevista. 'Sexuality and gender don't change anyone's performance on the court' afirmou Swoopes à ESPN. Especial também por se tratar de uma atleta negra, possuindo muitos fãs numa comunidade que costuma ser particularmente homofóbica.

A sexualidade e o gênero podem não modificar a performance de nenhum atleta no campo como diz Swoopes, mas infelizmente ainda hoje os preconceitos sexuais fora do campo podem impedir que se possa seguir uma carreira no mundo do desporto. Isso afecta diferentemente os atletas consoante o sexo e a orientação sexual. A cultura heterosexista dominante diferencia entre modalidades adequadas a cada sexo devido ás transformações do corpo e exigências físicas que certas modalidades originam e requerem, para além das dificuldades de conciliação de uma carreira desportiva com o papel social reservado ás mulheres em relação á família, pelo que no geral o desporto é visto como uma actividade masculina e durante muito tempo reservada aos homens. Assim a uma mulher que se dedique à musculação por exemplo, pode recair a suspeita de ser lésbica só por não se conformar com estereótipos de gênero. No entanto isso não é impeditivo de prosseguir uma carreira nessa modalidade, seja hetero ou lésbica. E embora o acesso de mulheres á maioria das modalidades seja hoje uma realidade, a vertente feminina do desporto é claramente subalternizada face à sua equivalente masculina em termos de apoios, publicidade e popularidade.

Já a dança rítmica por exemplo é uma modalidade olímpica exclusivamente reservada a mulheres. O heterosexismo dominante no desporto e o machismo que lhe está associado impedem não só que certas modalidades estejam acessíveis a homens, como tornam muito mais difícil que um homossexual possa singrar nas modalidades tradicionais. O receio de que isso possa prejudicar a popularidade de uma equipa ou da modalidade, ou o preconceito de que esse simples pormenor seja uma limitação das capacidades desportivas do atleta, são razões suficientes para que seja particularmente difícil a um homossexual prosseguir uma carreira desportiva, tanto mais fora do armário. Embora no segredo dos balneários a orientação sexual possa afectar mais os homens do que as mulheres, a publicitação de uma orientação sexual fora da norma afecta ambos na mesma medida, razão por que existem tão poucos atletas a fazê-lo e os que se atrevem geralmente esperam pelo fim da carreira. O desporto não é um mundo fechado, ele não existe sem o público que lhe confere popularidade, para além de toda a estrutura económica que lhe está associada e que é hoje um factor determinante, quer na prossecução de uma carreira desportiva, quer na relação com esse público. Assumir uma orientação sexual fora da norma neste contexto com consequências que não se controlam, exige coragem, mas movida sobretudo por um desejo de verdade e não por vontade de heroísmo, como diz Swoopes na entrevista, que já tem ampla liberdade no campo para mostrar o que vale. Bravo pois Swoopes!

veado_atleta

Publicado por renaseveados em novembro 5, 2005 04:53 AM | TrackBack |
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