Em Cavaco Silva tudo parece óbvio porque tudo se resume a uma gestão da imagem. Cultiva-se a previsibilidade na gestão do silêncio e da eficácia na economia dos actos públicos, quando afinal só se pretende escamotear a imprevisibilidade do oportunismo político. Por alguma razão Cavaco se resolveu a re-candidatar a Belém. Já se lhe conhecia o desejo íntimo mas não a oportunidade. Fez bem as contas e lá achou que valia a pena e que este era o momento certo. Mas essas razões só podem ser o oposto das que, sem alma, debitou para a multidão de jornalistas que lhe preparavam o caminho e servia de figurante colectivo para uma encenação estudada ao milímetro tão evidente era nos seus propósitos. Tudo se passou como se ele já fosse o Presidente. Uma acumulação de símbolos e sinais na construção da pose de Homem de Estado. A promoção de uma dinâmica de vitória a que, de tão esperada e encenada faltava veracidade e a força real da espontaneidade.
Por isso toda esta encenação mediática não foi um acontecimento, foi um flop- nada de novo, nenhuma estrela surgiu em Belém. Eu francamente por momentos pensei estar a assistir ao Sunset Boulevard tais eram os sinais de decadência. O discurso podia ter sido proferido em 85 tal a patine que aparenta. Aliás todo este bluff do presidencialismo arvorada ultimamente nos média pelos seus apoiantes (e explorada negativamente pelos seus adversários) destina-se apenas a conferir uma aura de poder quase mítico ao candidato: Cavaco é maior do que ele próprio. Ampliando ficticiamente os poderes reais do personagem (limitados constitucionalmente) empola-se assim a força do candidato. Mas tudo não passava de uma ameaça. Por muito que porventura essas ambições fossem verdadeiras, Cavaco jamais chegaria a ver concretizar-se na sua magistratura caso ganhasse tal mudança de regime, que esbarraria na actual maioria parlamentar. Na declaração de candidatura, Cavaco tratou de acalmar estes ânimos. Mas a pulsão presidencialista existe nos seus apoiantes e só poderia transmutar-se num factor de instabilidade institucional num candidato que só promete estabilidade.
Mas voltando às razões deste retorno, Cavaco dá a ideia de já chegar atrasado ao futuro a que não quer faltar na fotografia. Para quem passou os últimos 10 anos despreocupado a gerir os seus afazeres privados esta súbita preocupação com o futuro de Portugal só revela calculismo hipócrita. Ele sabe como economista que a evolução dos ciclos económicos dita que após uma recessão só pode vir a retoma económica. Tal como em 85, deve ter consultado os oráculos económicos e visto que Portugal vai no bom caminho. Mas desta vez o lugar de 1º ministro já estava ocupado e só lhe resta ir a reboque de S. Bento, apresentando-se com a duvidosa tarefa de animador da auto-estima dos portugueses. As relações de Cavaco com a actual maioria parlamentar são mais que duvidosas. Como economista não anda longe de considerar pela positiva a política de austeridade do actual governo, só achando que é pouco. Como político não lhe agrada nem a transversalidade da mesma, nem a ausência de demagogia ideológica, nem a cor partidária do excutivo. Desta vez será possível capitalizar o voto de insatisfação face ao governo como nas autárquicas?
veado_
«Desta vez será possível capitalizar o voto de insatisfação face ao governo como nas autárquicas?»
Seria sem dúvida mais fácil sem um candidato chamado Alegre, perseguido pelo actual governo.. Se Alegre for esperto conseguirá passar a imagem do "rebelde perseguido" versus os candidatos dos aparelhos e ainda por cima cromos repetidos.. ;)
Afixado por: Boss em outubro 24, 2005 02:56 AM