
Copiado daqui.
Antes de mais gostariamos de nos distanciar publicamente deste post, do qual discordamos do princípio ao fim.
Para além de profundamente injusto na sua crítica a alguns bloggers da casa, está pejado de conteúdos que, para nós claro, não fazem o menor sentido. Não vamos dissecá-lo, mas destacar a frase que mais nos preocupou: «Ter gays na TV portuguesa a desempenhar um papel não político é uma realidade recente».
Não sabemos o que é um papel «não político» de «gays», para mais numa sociedade, como afirma Miguel Vale de Almeida aqui, que se alicerça, entre outras injustiças, na desigualdade com base na orientação sexual, a visibilidade da homossexualidade é uma necessidade absoluta no plano público e político; tudo é político, mas a sexualidade será, de entre todas, a mais politizada das temáticas (note-se, por exemplo, que as chamadas «questões fracturantes» andam à volta disso mesmo: o aborto, a homossexualidade, and so on). Mais, os moldes aparentemente revolucionários da SIC(K), no programa em causa, serão assim tão diferentes das dissimuladas aparições de personagens gay na televisão portuguesa dos últimos anos? Se nem G, aparece claramente como Gay!
Mas lá no fundo, nós até entendemos a frase, e foi precisamente isso o que mais nos preocupou: a necessidade que boa parte dos LGBTs têm de «desideologizar» (desculpem o neo-logismo) as temáticas «gay», necessidade essa que, claro, parte do facto da homossexualidade estar presente em todos os quadrantes políticos e sociais e, logo, gerar incongruências como ser-se de direita ou católico e simultaneamente LGBT. É uma questão que já é velha aqui no renas e que parece ser «fracturante» nos blogues ou no activismo LGBT em geral: a homossexualidade como algo a-político ou a-religioso ou não.
O nosso entendimento é que, enquanto a sexualidade for utilizada pelos partidos políticos e pelas confissões religiosas (ou quaisquer outras instituições, que no seu conjunto, o fazem de forma verdadeiramente «globalizada») a nossa gayness será sempre utilizada como alavanca política (de esquerda, claro está) e não uma mera componente (fatalidade?) da nossa personalidade (deve ser isso o que o Drocas quis dizer com «não-político»).
Num excelente artigo de Timothy Garton Ash (PÚBLICO de 11 de setembro, indisponível on-line) intitulado «A Lição do Katrina», este pensador focava um interessante prisma sobre a tragédia que se abateu no sul dos EUA: a forma como, em certas condições o Homem se «desumaniza», atropelando tudo o que são as conquistas da «civilização». Este texto é mesmo um oásis na deplorável campanha que o PÚBLICO, através de muitos dos seus colaboradores, vinha fazendo em prol a defesa cega o «amigo americano», acusando quem criticasse a falta de preparação mínima da administração Bush para antecipar o Katrina de «anti-americanismo» primário.
Essa «desumaninação» ou o salve-se quem puder, é um fenómeno que vemos muitas vezes nessa cultura gay, falsamente não ideológica, que o Drocas pretendeu retratar. A imagem que colocámos lá em cima, de um qualquer indigente filipino, é disso reveladora. Mas também podia usar esta, igualmente colocada num post do Drocas e que, não tendo podido fazê-lo na altura, manifestamos também o nosso desacordo.
O programa lá terá virtudes, mas não tem a de espelhar a diversidade que o Drocas quis, indignadamente, fazer transparecer; é mesmo a imagem pegadinha da que o vulgo tem da homossexualidade e que tantos problemas nos tem dado a todos (mais bichas ou menos bichas), uma imagem de gente desumana (como aquela que dava José Castelo Branco), indiferentes (ou por outra, deliberadamente indiferentes) a tudo o que se passa à sua volta! Essa «desumanidade» gay NÃO.
Pagan e Hetero_doxo
Publicado por renaseveados em setembro 13, 2005 06:23 PM |Se há algo de que eu me distancio com todas as certezas que tenho é esta tendência arrogante de colocar intenções e objectivos de forma obrigatória nas identidades das pessoas.
Esta conversa das obrigações políticas associadas às identidades sexuais é no mínimo boring e completamente distanciada da realidade. Aliás, penso até que ao contrário do que é afirmado neste post esse hábito tipicamente anos 70/80 (retrógrado e contra-producente) está condenado à morte. Senão veja-se as características da Geração Y.
Eu também gosto imenso de minorias dentro de minorias. Viva a diversidade!
Drocas,
Algumas coisas desagradáveis no teu comentário. A primeira é a cedência à triste atitude de falar em gerações e qualificá-las. A tua geração (que nem sei qual é e há-de existir tão pouco como a minha, a não ser na cabeça dos publicitários) não é o máximo do cool e os outros que aqui estão e aqui vivem não estão mortos. Segundo, há sempre coias a deitar fora e coisas a aprender com o passado. Uma destas é a distinção entre gay politizado e não politizado - isto é, que reconhece o carácter político da sexualidade. São dois tipos diferentes e não há porque degladiar muito quem tem mais razão: em última instância a única coisa que nos pode unir a todos é lutar contra a homofobia. POr fim, o link para o artigo sobre a geração Y não abona a teu favor: é "ciência"(zita) pop do pior. Desde quando é que as "gerações" são critério de análise? Só na cultura de consumo nas revistas da treta (e nisso é divertido, só que só isso: divertido).
PS: quem me conheça sabe que não suporto bocas contra homens efeminados (whatever that means), travestis, transexuais, and so on. Isto é para dizer que a minha discordância contigo nada tem a ver com subscrever algumas atitudes feias de elogio do gay macho ou "integrado" como único modelo defensável.
Afixado por: miguel vale de almeida em setembro 13, 2005 07:34 PMReconhecer gays que politizam ou não politizam a sexualidade, é fácil. O que eu discordo é quando leio que é bom, desejável, necessário ou até obrigatório ou natural que os homossexuais politizem a sua sexualidade. Há muitas formas de lutar por direitos civis e humanos.
Quanto às gerações... sinto-me livre para aprender com pessoas mais velhas, para concordar ou discordar. Quanto à questão dos gays politizados, prefiro ouvir as mais novas.
Afixado por: Drocas em setembro 13, 2005 08:34 PMTenho por hábito passar por este blog e já discordei pessoalmente de muitas das opiniões aqui expressas - nada de grave, é salutar, democrático e banal. Mas a minha indignação , hoje, ao ler "A desumanização gay" levou-me a colocar aqui um comentário. Sinceramente que me senti estupidificado com prosa tão leviana e maniqueista. Desde quando é que expor a sexualidade é um acto político de esquerda? O arrazoado aqui publicado leva-me a temer que certas posições se assemelhem às da maioria dos evangelistas televisivos que prosperam nos Estados Unidos - manipuladoras, farisaicas, e, pior, que revelam uma particular "fenomenologia" do que é ser gay. Por favor, a ironia tem piada, mas quanto a posições fascizantes sobre o que quer que seja, estamos conversados.
Afixado por: Fernando Luis em setembro 13, 2005 10:45 PMNo próximo sábado
Governo Civil de Lisboa autoriza manifestação contra homossexuais
O Governo Civil de Lisboa autorizou a realização da manifestação marcada para o próximo sábado pelo Partido Nacional Renovador (considerado de extrema-direita) para protestar "contra a adopção de crianças por casais homossexuais, a pedofilia e o 'lobby gay'".
in "www.publico.pt" 2005-09-13
Estou boquiaberto!!!
Drocas, o Miguel disse mais do que eu saberia dizer sobre o teu comentário, de modo que me fico por aqui.
Fernando Luis fico contente com o facto de ler o blogue muitas vezes :). Agora inferir que eu e o Pagan alguma vez afirmámos que «expor a sexualidade é um acto político de esquerda» é um abuso e que demonstra que da vez em que resolveu comentar no blogue não o leu, de facto. O que afirmámos é que a nossa luta contra a homofobia (entenda-se minha e do Pagan) é feita à luz dessa layer política (que publicamente e por várias vezes já afirmámos, cada um por si) que se revê na esquerda e que nenhuma acção humana (entendemos nós no nosso humilde «fascismo de esquerda, maniqueísta e leviano») é desprovida de sentido político, sobretudo nesta área (entenda-se da sexualidade).
Vito É uma triste notícia que só confirma a decadência do nosso sistema político e de segurança. É a mesma imprensa que descobre um certo filão gay (aquele que lhe interessa) para aumentar as audiências, que chafurda os podres (como os nazis e outros «energúmenos») em busca de polémica fácil. Mas o Boss já deu conta, e muito bem, de todos esses esquemas num post aqui em baixo.
Afixado por: Hetero_doxo em setembro 14, 2005 01:21 AM