
A jornalista Diana Andringa (entre outros) assina um vídeo sobre uma das melhor sucedidas manipulações jornalísticas feitas em Portugal. O caso é o do já célebre «arrastão de Carcavelos», que afinal não existiu.
O melhor é ver o vídeo, e descobrir como, a pouco e pouco e na mesma progressão cronológica com que se vai desmontando esta monumental falácia jornalística, os meios de comunicação social se desinteressam de um tema que já não contém os ingredientes essenciais do sensacionalismo: «terror»; «crime»; «impunidade»; «negros».
Neste fim-de-semana, Helena Matos (PÚBLICO, a pagantes), lá vinha comentando a falta de isenção dos jornalistas (seus colegas), a propósito de uma reportagem da revista VISÃO. A jornalista, habituada que está a fazer parte da «minoria», tecia considerações sobre a moralidade subjacente aos trabalhos jornalísticos que condenam os «jovens de pais ricos» à tristeza e o «jovens de pais pobres» à alegria, comparando esta estratégia (supõe-se que a do jornalismo de «esquerda») à de Salazar e a da «família pobrezinha mas feliz».
Curioso é que da parte desta jornalista, não se viu um único comentário ao escandaloso trabalho feito pelos seus colegas jornalistas a propósito do «arrastão» (na altura, senão me engano, discorria sobre latim, e países africanos que não existem!). E isso é simples de entender, já que a «moralidade» a que faz Helena Matos referência, vem acompanhada por uma expressão inédita: «psicologia correcta», que, segundo o caso, pode ser substituída por «sociologia correcta», «política correcta», and so on, sendo que o «correcto» é quase sempre tudo o que tenha a ver com direitos de minorias e a uma visão solidária da sociedade.
Tal como noutros textos, Helena Matos vem sistematicamente falando da necessidade de reforço da autoridade, eliminando o papel social do Estado (de compreensão e actuação, em conformidade, perante os problemas das ditas minorias) e aumentando o papel repressor. Vejam-se, por exemplo, o textos em que a jornalista fala da violência na escola e de como ela, mãe preocupada, resolveria com a perdida atitude autoritária dos professores (aí sim salazarenta) os problemas de violência escolar, nomeadamente a dos «filhos dos imigrantes africanos».
Este discurso cola bem com a atitude dos seus colegas que transformaram um assalto num arrastão de proporções cósmicas (claro, não foram acusados de nada, muito menos por Helena Matos), a cujo sensacionalismo colaram bem as necessárias e demagógicas atitudes do Governo sobre a necessidade de aumento de policiamento e uma estigmatização ainda maior das comunidades de origem africana a viver em Portugal, muitos deles, portugueses de gema. Elas são só a base de um comportamento racista, de que a manifestação nazi do passado dia 18 de junho é só a ponta do iceberg.
P.S. Se em Portugal não é comum esta estratégia jornalística, de colagem do crime e da violência aos «negros», nos E.U.A. ela é prática comum (os canais de televisão portugueses passam de vez em quando as «espectaculares» presseguições aos criminosos daquele país, que, por acaso, são quase sempre a «negros»). Veja-se este site de um grupo xenófobo americano e o tipo de vídeos que fazem questão de linkar.
Hetero_doxo
Publicado por renaseveados em julho 5, 2005 06:16 PM |Diana Andringa é uma das melhores jornalistas portuguesas e das poucas que ainda pratica um jornalismo de investigação. Assina aqui mais uma excelente peça.
Afixado por: veado_ em julho 6, 2005 11:41 PM