
Agora ando a ouvir,Tom Zé, o mal amado do Tropicalismo, recuperado para a world music pela Luaka Bop, que lançou novo album em Março deste ano. Mais que um álbum, aliás uma opereta, Estudando o pagode- na opereta segregamulher e amor. Baseada nesse material musical, considerado dos pobres e bregas do Brasil: o pagode. A opereta tem 3 actos: Mulheres de apenas, Latifundiários do prazer e Amor ampliado para o Teatro e para o País, o mote é feminista e Tom Zé dedica-se a analisar a condição feminina através da história e as humilhações e indignidades que o patriarcado votou as mulheres.
Musicalmente é o pagode que dá o ritmo, mas as influências em Tom Zé, notórias ao longo de todo o album, fazem pensar na imensa amplitude das culturas musicais brasileiras e no melting pot admirável que é esse país. Se procuram serenar e sossegar aos ritmos da tropicália, não é adequado, porque inquieta temática e musicalmente muito mais do que os agora tíbios Gilberto Gil e Caetano Veloso. Tom Zé, ao contrário, é política total, compara a posição da mulher à escravatura (O macho pela vida/Se valida/A molestar a mulher/Se diverte(...) Vendo ele transar uma boneca de pau,/Com seu incubado,/Calado, colado, pirado pavor/Do segredo sagrado//Por isto existe no mundo/Um escravo chamado/Mulher), face aos Estados (nomeadamente os que não lhe permitem o seu direito à auto-determinação), aos Deuses múltiplos e aos homens que as vilipendiaram colectivamente. Passando por uma série de referências clássicas que vão desde a Nora (da Casa das Bonecas de Ibsen), à Medeia a matar os filhos, por raiva e amor de Jasão e à Ofélia, chorando o seu primeiro amor. Da Canção de Nora, que me deixou completamente absorvido, deixo aqui a letra para deleite poético-político. Recomendadíssimo!
Pagan
7. CANÇÃO DE NORA (CASA DE BONECAS)
Tom Zé
Homem do Gênesis:
Sobre o abismo pairava Deus:
O homem era um dos aliados
Seus.
Era de se ver,
Era de se ver.
Mas Nora ignora os poderes
Reais,
O chicote, a espada e suas leis
Morais.
Era de se ver,
Era de se ver.
E quando decide escrever
O seu próprio roteiro,
Quebrar as correntes
Do secular cativeiro,
Então ela pede
Às forças do sangue
Valia
E logo a sala se torna,
Da sua pessoa,
Vazia.
Coro de Ibsen:
Na hora em que Nora
Sai, bate a porta
Abre-se um vão
O céu quase aborta
A lei que era morta
Cai no porão.