março 22, 2005

Recomendação para os dias da Paixão...

"Novas Cartas Portuguesas (ou de como Maina Mendes pôs ambas as mãos sobre o corpo e deu um pontapé no cu dos outros legítimos superiores)". O livro das 3 Marias (Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa), das primeirissimas manifestações de feminismo da 2ª vaga em Portugal, perseguido pelas autoridades (ilegítimas) como pornografia, é das obras que mais admiro na liberatura portuguesa. Pelo seu carácter intertextual, pelo modo como desafia as pré-concepções de uma literatura semi-periférica e pelo exercício de estilos (epistolar, poesia e prosa). Capaz de criar um universo novo, reivindicar um espaço que seja seu (sim, como diria Virginia Woolf) e simultaneamente pressionar politicamente um mundo podre e um ambiente pestilento, que existia no plano de uma esfera pública, policialmente vigiada.

A releitura das Cartas Portuguesas de Mariana Alcoforado, serve de mote, para se abolirem as clausuras em que o génio feminino habitou e habita. Até porque génias conhecemos poucas, por oposição ao rol interminável e francamente aborrecido de grandes accomplishers homens. Por isso, obras como as Novas Cartas Portuguesas abrem esse espaço mental, intelectual, criativo na literatura. Para que nos possamos surpreender com génios não exclusivamento masculinos.

As poucas manifestações de apreço dadas a esta obra, revelam que ainda continuamos vigiad@s no nosso gosto, marcados por um discurso igualitário, mas que continua a pensar-se como único mundo possível. Esta obra, enquanto abertura de um novo universo literário, em que se pode tecer uma obra, a três mãos, em modo multi-género literário clama liberdade e criação. Em 1972, data da primeira publicação foi uma pedrada no charco. Hoje, permanece enquanto tal. Nesta semana de paixões múltiplas e desenfreadas, porque da paixão dos senhores falamos, não poderia deixar de vos falar nelas!

"Só que em Beja ou Lisboa, de cal ou de calçada - há sempre uma clausura pronta a quem levanta a grimpa contra os usos:

freira não copula
mulher parida e laureada
   escreve mas não pula
(e muito menos se o fizer a três)
com a Literatura,
LITERATURA, não se faz
rodinhas
-porém, ledores, haveis comprado
Mariana, e nós, tendo ela
montado o cavaleiro e bem
no usado para desmontar
suas/doutras razões de conventurar.
" (p. 14)

João O

P.S.: Quando me refiro a génio, uso a acepção de Julia Kristeva: "O termo génio parece-me designar aventuras paradoxais, experiências singulares e excessos surpreendentes que acontecem, apesar do nosso universo cada vez mais standartizado. A sua aparição espantosa, tão díficil, quase impossível dá sentido à existência humana" (In Le Génie Feminin- Tome 1: Hannah Arendt)

Publicado por renaseveados em março 22, 2005 08:14 PM |
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Comentários

O Renas está moi relixioso ultimamente, non achan?

Afixado por: Cesare em março 22, 2005 10:20 PM

É a semana santa Cesare, há que a celebrar ;)

Afixado por: Boss em março 23, 2005 03:17 PM

Holly cow, semana santa?!?!

Afixado por: Opinioes em março 25, 2005 01:54 AM

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