
Quando cheguei a Oświęcim, depois de uma sonolenta viagem de autocarro, não estava preparado para o que se seguia. A sala de espera do agora Museu de Auschwitz assemelhava-se a uma qualquer sala de espera de um monumento muito visitado, cheio de turistas mais ou menos histéricos e recuerdos à venda. Fiquei-me por um chocolate quente que a isso convidava o gelo que se fazia sentir.
Ao dirigir-me para o ex-campo de concentração, vi finalmente o famoso portão com a sinistra inscrição Arbeit macht frei (o trabalho liberta), e foi aí que senti o primeiro choque. O portão era muito mais pequeno que o que me dizia a minha memória hollywoodesca, e o facto da imagem não ser a preto e branco tornava-a muito mais vulgar, não parecia um campo de concentração. Ao atravessar as primeiras ruas essa ideia tornou-se mais forte ainda, edifícios de tijolo bem ordenados, um aspecto limpo e até árvores! Já tinha visto bairros menos simpáticos.
Inaudível que era o guia, lancei-me por minha conta a visitar as exposições que preenchem quase todos os edifícios. A sujidade e degradação dos objectos expostos era evidente, e para fugir a uma excursão de teenagers alemães, abandonei rapidamente esse primeiro edifício. Ao calhas entrei num segundo, e só aí pude ver com calma o que estava exposto. Corredores com fotografias de crianças mortas, relatos de sobreviventes, de fugas. Listas de prisioneiros, descrições do que era feito em cada compartimento, espaços ínfimos onde era suposto dormirem dezenas de pessoas. Objectos de tortura, descrições das torturas, das dietas "alimentares", roupas, cabelos, e mais corredores com fotografias dos mortos de Auschwitz. Em pouco tempo se desvaneceu a primeira imagem, e sentia um enorme aperto no coração.
O sentimento é dúplice, identificação com as vítimas e remorso por sermos humanos como os seus carrascos. À saída o festival de flashs e souvenirs parece-nos completamente despropositado e de mau gosto. Mas mesmo assim preferi ficar por aí, a ter que visitar Auschwitz II. No regresso a Cracóvia a monotonia da paisagem polaca não é suficiente para nos fazer adormecer de novo. E à noite é um pouco incrédulos que vemos, nas lojas da praça central da cidade, caricaturas de judeus feitas em madeira ao lado das costumeiras t-shirts e das importadas babushkas. A memória é muito curta. Faz hoje 60 anos, e esquecer é um crime.
Boss
Links úteis:
- A libertação de Auschwitz - Deutsche Welle
- Homosexuals and the Holocaust de Ben S. Austin
- A time to remember... - Daily Out, Holocaust Memorial Day 2005 Special Edition (em PDF)
- Auschwitz & Birkenau - foto-reportagem do PortugalGay.PT
Publicado por renaseveados em janeiro 27, 2005 03:19 AM |E recordar não será um crime também? Até quando teremos de nos torturar com as mesmas coisas? A vida só pode prosseguir, quando deixamos o passado para trás... que ele sirva para que não repitamos os erros, mas não como instrumento de tortura psicológica...
Afixado por: Agros em janeiro 27, 2005 03:38 AMboss,
o teu texto faz-me lembrar infelizmente a visita ao museu "American War Crimes" em Saigao e aos "killing fields" no Cambodja...
e mais triste sera ainda visitar os holocausto que ainda estao a decorrer enquanto escrevo isto...
;-(
Afixado por: Opinioes em janeiro 27, 2005 04:28 AMAgros recordar NÃO é certamente um crime, só recordande se previne que se repitam estes crimes. Aliás, faz-te falta uma visita a Auschwitz para que sejas mais cuidadoso no uso da palavra "tortura".
Opiniões infelizmente já houve muitos holocaustos, este toca-nos especialmente não só pela dimensão como pela proximidade geográfico-temporal. Mas por exemplo, é uma vergonha o pouco destaque que tem a "santa inquisição" nos nossos programas escolares, a cultura média sobre isso é fraquíssima. Uma vergonha!
Afixado por: Boss em janeiro 27, 2005 04:44 AMUma amiga minha diria que a humanidade não aprende com os erros, mas talvez se estas memórias se forem mantendo frescas ao menos leve mais tempo até que os erros se repitam.
Afixado por: João Zun em janeiro 27, 2005 11:26 AM«E recordar não será um crime também? Até quando teremos de nos torturar com as mesmas coisas?» Agros em que mundo estranho vives? Crime será NÃO recordar. E negar, com já há quem faça. E esquecer, como pareces querer. É melhor reveres a tua noção de crime...
Afixado por: Ana em janeiro 27, 2005 11:32 AMo q os humanos são capazes de fazer por ambição ou mesmo por pura birra.....é uma tristeza....Holocausto...algo q nunca será...nem deverá ser esqecido...
Afixado por: Azorboy em janeiro 27, 2005 03:24 PMReparo agora que este meu texto está bastante incompleto. Bom também não queria dar uma aula de história, apenas uma visão pessoal da minha visita ao campo. De qualquer forma e por curiosidade acrescento que a mesma foi em 2003 no Outono.
Sobre os bonecos de judeus caricaturados, rabinos aliás, tentei encontrar mais informação na internet. Mas não achei nada demais, só o comentário de uma americana que como eu achava de mau gosto a venda desses bonecos, e comparava-os aos bonecos de índios vendidos em algumas reservas de índios norte-americanos. Num e noutro caso, primeiro extermina-se e depois vendem-se réplicas - muito mau gosto.
É possível que no caso dos bonecos de Cracóvia, os mesmo fossem já antes do Holocausto um produto tradicional típico, mas isso não abona nada em favor dos mesmos, já que antes do Holocausto o anti-semitismo era feroz e os ditos bonecos não seriam feitos por simpatia.
Finalmente, Oświęcim é o nome polaco da aldeia onde fica o campo. Auschwitz é o nome alemão. E fica a cerca de 60km de Cracóvia.
Afixado por: Boss em janeiro 27, 2005 04:01 PMJoão Zun, Auschwitz não foi um erro. Um erro foi os Aliados não terem levado mais a sério os indícios sobre Auschwitz. Erro foi a apaziguação de Hitler. Erro é um mau casamento. Erro é querer fazer algo bem e acontecer que saiu mal porque só poderia sair mal.
Auschwitz não foi um erro, foi algo muito bem feito. Foi feito para matar e torturar. E cumpriu perfeitamente. Auschwitz não foi um erro nem sequer um crime. Auschwitz esteve para lá disso tudo.
Afixado por: João André em janeiro 27, 2005 04:11 PMtantos anos passados e a mesma interrogação: como foi e é possível?!?
Afixado por: bagdade em janeiro 27, 2005 08:00 PMÉ de facto triste recordar ... como foi possível !
Na cracóvia é estranho percorrer as pequenas ruas, escuras e de paredes atijoladas onde foram filmadas as cenas dos guetos na "Lista de Schindler" ... tive pena de não ter tempo para conhecer Oświęcim ...
E' apenas necessario que cada ser humano diga sempre, NUNCA MAIS!