Realidade e ficção. Palavras e acção. É para além destas dicotomias que se encontra o trabalho de Sophie Calle. Como parentesis, tenho que confessar o nervosismo que me provoca escrever sobre Sophie Calle, pois é díficil falar de alguém cujo o trabalho admiramos muito. Sem detrimento para tod@s @s outr@s artistas, devo dizer que para mim, mlle. Calle está au-delá des autres. Por tudo o que ela já deu à arte, por todas as reflexões que nos fez fazer e também pela figura da artista, em que a ironia, a criatividade e o desrespeito pelas convenções estão sempre presentes. Portanto, denuncio já minha enorme parcialidade e tendenciosismo face a Sophie Calle.
Os trabalhos de Calle envolvem habitualmente performances, que depois são filmadas e/ou fotografadas e que Calle apresenta em livros de sua autoria, analisando o contexto da obra e apresentando-a à sua maneira. Apesar de também existirem instalações. Assim tanto a palavra como a imagem e a acção estão presentes na sua obra. Um dos seus primeiros trabalhos, Filature (o sombra) (1981), envolveu a contratação de um detective privado, a pedido de Calle, por intermédio da mãe, para seguir a artista por um dia e apresentar um relatório detalhado de todos os seus passos. Numa obra do mesmo, L'Hôtel (1981), Sophie, emprega-se como criada de quarto num hotel veneziano, aproveita para fotografar e escrever sobre os seus temporários ocupantes. Em 1980, tinha feito uma das suas obras mais marcantes, que consistia em pedir a pessoas para virem dormir para a sua cama e fotografá-las, durante o sono (Les Dormeurs, 1979).
Noutra série de obras, seguiu as instruções de Paul Auster, que se inspirou na vida de Sophie Calle para criar a personagem Maria em Leviathan (livro que li exclusivamente por culpa de Calle e que me fez interessar por Auster) e fez 3 tipos de performance/instalação/fotografias: comer uma dieta cromática, baseada no facto de Maria gostar de fazer refeições só com alimentos vermelhos, só com alimentos amarelos, só com alimentos verdes, etc (Le Régime Chromatique, 1997); posar para fotografias com objectos e temas começados ou por B, ou por W ou por C (Des journées entiéres sous le signe du B, du C, du W, 1998); seguir à risca as instruções de Paul Auster sobre como viver em Nova Iorque, o que implicou inclusivamente decorar uma cabine telefónica, personalizando-a (Gotham Handbook, 1994). Snteriormente tinha feito um filme sobre uma viagem de carro, com o namorado entre Nova Iorque e a California, que culmina no casamento entre os dois em Las Vegas, apesar da tensão vivida pelo casal durante a viagem (No sex last night, co-autoria de Greg Sheppard 1992). Contudo a obra pela qual sinto mais ternura, é Voyage en Californie (2003). Imaginem que um belo dia, Mlle. Calle recebe um e-mail de um americano a pedir-lhe para o deixar curar um desgosto na cama dela (eventualmente por ter visto Les Dormeurs). Sophie Calle não o quer receber em Paris, mas para cumprir o pedido, manda-lhe a cama para a California. 6 meses depois a cama é-lhe reenviada, tudo anunciado por um e-mail dele que começa por dizer: "dear sophie, your bed has left...", anunciando que o desgosto estava curado. A obra compõe-se de fotografias da cama, e-mails, faxes, a própria cama embalada, sem nunca mostrar o pobre americano sofredor. Não pretendo entrar em grandes análises. Deixo-vos essa tarefa. Com uma pista: o título da retrospectiva de Sophie Calle no Pompidou era M'as-tu-vue? (viste-me?). Será que alguma vez a chegamos a ver, apesar da sua suposta sobre-exposição por via da sua obra?


Les Dormeurs, 1979

No sex last night, 1992

Cartaz da retrospectiva de Sophie Calle M'as tu vue? no Centro Pompidou, 2003
João O
Não conhecia a artista. Mas, pelo que expões, parece-me muitíssimo interessante. Vou procurar conhecer. Um abraço. :-D
Afixado por: troblogdita em novembro 24, 2004 10:17 AMSó uma correção: "No Sex Last Night", ou aliás "Double Blind" (título original não termina com a ruptura. Sophie Calle e Greg Sheppard (e são ambos autores) percorreram a América de Leste a Oeste, foram dormindo juntos, seguindo-se a ritual frase "no sex last night", e enfim casaram-se na famosa capela "drive-in" de Las Vegas. O filme conclui-se portanto com eles casados e não já separados.
Posteriormente, a Sophie encenou mesmo uma cerimónia de casamento - e uma série fotográfica - com ela vestida de noiva, na sua terra, em França. Por algumas circunstâncias de que eu próprio fui parte, foi possível ampliar "Double Blind" do DV8 original para 35 mm (um caso pioneiro), com o apoio financeiro do Paulo Branco, e eu mesmo fiz a introdução na 1ª apresentação pública da obra nesse novo quadro, em Lisboa, no Monumental 95. Para a estreia comercial, o título foi então alterado para "No sex last night".
Afixado por: Augusto M. Seabra em novembro 24, 2004 03:52 PMLOL. Pois é, termina mesmo no casamento em Las Vegas. Onde é que eu terei ido buscar esta história da ruptura? Pensando bem, a confusão deve ter que ver com a tensão vivida entre o casal durante (e antes) da viagem. Sophie descreve esta tensão de forma muito simples: Ela queria casar com ele, ele (Greg Sheppard) queria fazer um filme... Vou corrigir ;)
Afixado por: João O em novembro 24, 2004 06:16 PMJoão do Ó: estes teus posts artsy são o máximo. Já pensaste em como seria interessante reuni-los num livrinho mais tarde? Tipo "João O's best pic(k)s"?
Afixado por: miguel vale de almeida em novembro 24, 2004 06:38 PMMiguel, m'dear, (um comment desabafo) o interesse por estas coisas é eventualmente para escapar do pó das ciências sociais. Especialmente quando se vive num país em que ainda se permanece, quase em exclusividade (salvo excepções que conhecemos), no registo sociográfico-empirista. L'art des autres é uma fuga possível... quanto ao livrito, veremos... é uma bela ideia.
Afixado por: João O em novembro 24, 2004 07:40 PMque eu me lembre o "no sex last night" foi uma encenação! ou seja eles já não estavam juntos quando fizeram o documentário! tinham pensado neste projecto ainda como parceiros, e mesmo após a ruptura decidiram continuar a "aventura". penso que foi mais uma estratégia dela para o conseguir reconquistar. tres calle!
talvez tenha sido isso que te fez pensar que o documentário acaba em ruptura.
a obsessão da calle com o casamento é fascinante. o livro "douleur exquise" (belas fotos de viagem) é uma obra prima e tb lida com esse fantasma que a persegue desde...sempre.
little p
Afixado por: little p em novembro 24, 2004 09:36 PMEssa obsessão de Calle é mesmo uma constante... aliás o lidar com a vida amorosa está patente em grande parte da sua obra... Aliás acho que só sobre ela se poderiam fazer mais de 20 posts...
Para além disso, já faz um tempo que vi o No sex last night...
Sinto este post como um conjunto de faltas... mas não dava para me alongar muito mais. Se os comentadores o quiserem fazer, please be my guests pour bavarder sur Calle...
Afixado por: João O em novembro 24, 2004 09:43 PM