novembro 21, 2004

Pour Homme de André Murraças

Ao contrário do que se possa pensar ou declarar, afirmando virtudes públicas (e claro, mantendo ocultos os pressupostos viciosamente privados), partilho da análise de Donna Haraway, de que existe um privilégio na perspectiva parcial. Em vez de olhar o mundo através de uma narrativa legitimadora cheia de grandes truísmos universais ou de verdades absolutas, confesso um comprometimento com as minhas crenças e ideários, com o meu modo específico e localizado de olhar o mundo, rejeitando absolutos, universalismos e dogmas. Não sou pois apreciador de grandes sistemas, de grandes narrativas de legitimação e muito menos de regras universais. Não acredito nas mesmas e nem fazem parte do modo como gosto de olhar.

Rejeito assim as facilidades das análises ditas objectivas, da crença de que o que observamos corresponde a uma realidade tangível e de que existe um valor subjacente às coisas. Para mim, é mais evidente um olhar parcial, uma ficção que construo, uma maneira particular de observar. Senti essa localização e o encontro de subjectividades e identificações com a performance de André Murraças (o meu querido André), que esteve em reposição no Teatro Taborda, na passada sexta feira.

Pour Homme revisita os mitos associados à masculinidade, evitando cair no falso neutro, no referente universal masculino, medida e valor de todas as coisas humanas. O autor preferiu revisitar a particularização do masculino, os aspectos que fazem divergir a masculinidade do humano universal, ilustrando os rituais, as performances, as obsessões do corpo e subjectividade, quando ancorado num universo simbólico da masculinidade hegemónica, versão ocidental. A oferta que o André nos fez naquela noite, foi pois, a partir da sua performance, permitir olhar para uma construção de uma identidade. Que é validada e reforçada pela estrutura e simbólica social que a envolvem.

Ora o André resolveu olhar para fora e para dentro e transmitir esse olhar através da performance. De um culto quase californiano do self, que passa pela invenção do metrossexual, pela negociação das novas masculinidades com a bafienta hegemonia da masculinidade tradicional, até à apresentação dos modos mais convencionais de viver a masculinidade, esta proposta não esqueceu o queer, esse modo parcial e performativo de rejeitar os códigos mais convencionais do género. No que me pareceu, ser o momento mais interessante do espectáculo.

João O

Publicado por renaseveados em novembro 21, 2004 11:24 PM |
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Comentários

:), merci.

Afixado por: André em novembro 21, 2004 11:43 PM

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