novembro 20, 2004

Poderá a teoria ser arte? Arte-Teoria?

Estes posts não seguem fio condutor ou linha crítica. Vejo-os mais como um rizoma, "1º et 2º Principes de connexion et d'heterogeneité: n'importe quel point d'un rhizome peut être connecté avec n'importe quel autre et doit l'être" (Deleuze & Guattari, 1980 Mille Plateaux)" Sendo um rizoma, uma rede de associações, posso partir do meu texto em hyperlink para outro ponto qualquer da rede. Andemos então ao longo da rede.

Um dos aspectos interessantes de determinados modos de pensar a arte contemporânea é o seu potencial crítico e de análise sócio-política. E que ao longo do tempo se encontrou/desencontrou com determinados movimentos sociais ou filosóficos. Neste aspecto, o cruzamento do feminismo com a arte, notório em determinados sectores da arte contemporânea, é um momento de polimorfia perversa, de rupturas e associações, uma contaminação por vírus de parte a parte. É numa teórica (feminista) da arte que encontro uma das melhores definições do paradoxo feminista: Griselda Pollock. Traduzida para português, por Ana Gabriela Macedo na sua antologia de textos Género, Identidade e Desejo, diz-nos:

"Poderemos assim afirmar que o feminismo significa um conjunto de posições, não uma essência; uma prática política, não uma doutrina; uma resposta e intervenção dinâmicas e auto-críticas, não uma plataforma única. É o produto precário de um paradoxo. Parecendo falar em nome das mulheres, a análise feminista desconstrói perpetuamente o próprio termo à volta do qual se encontra politicamente organizado."

Deste paradoxo, surge o Manifesto Cyborg (por Donna Haraway), criando uma poética teórica em torno do regime de tecnociência, carregada de seres híbridos, misturas de máquinas e organismos, sínteses de uma nova ordem mundial, possibilidade de resistência irónica à separação dos mundos: Isto é macho, isto é fêmea, a dicotomização absoluta e irredutível da ordem moderna dos seres:

"Nos finais do século XX, o nosso tempo, um tempo mítico, todas nós somos quimeras, híbridas teorizadas e fabricadas como máquinas e organismos, em resumo somos ciborgues. (...) O ciborgue é uma criatura do mundo pós-género. (...)

o ciborgue está simultaneamente comprometido com a parcialidade, a ironia, a intimidade e perversidade. É um ser antagónico, utópico e completamente desprovido de inocência (...)

um corpo ciborgue não é inocente; não nasceu num jardim; para ele; não busca uma identidade unitária e, por isso, gera dualismos antagónicos sem fim (ou até ao fim do mundo); para ele a ironia é um dado adquirido."

Este novo modo de entender o mundo encontrou expressão no manifesto VNS Matrix, ligado um colectivo de mulheres artistas australianas, que produziram este manifesto:

VNS Matrix:

CYBERFEMINIST MANIFESTO FOR THE 21ST CENTURY

We are the modern cunt
positive anti reason
unbounded unleashed unforgiving
we see art with our cunt we make art with our cunt
we believe in jouissance madness holiness and poetry
we are the virus of the new world disorder
rupturing the symbolic from within
saboteurs of big daddy mainframe
the clitoris is a direct line to the matrix
VNS MATRIX
terminators of the moral codes
mercenaries of slime
go down on the altar of abjection
probing the visceral temple we speak in tongues
infiltrating disrupting disseminating
corrupting the discourse
we are the future cunt


Manifesto first declared by VNS Matrix
1991, Adelaide & Sydney, Australia
VNS Matrix

"A imagética ciborgue pode apontar um caminho para sairmos do labirinto de dualismos em que explicámos a nós mesmas os nossos corpos e as nossas ferramentas. Este sonho não é o sonho de uma língua comum, mas de poderosa e infiel heteroglossia. É a imaginação de uma feminista que fala em línguas capazes de infundir o medo nos circuitos supersalvadores da nova direita. Significa simultaneamente, construir e destruir máquinas, identidades, categorias e histórias espaciais. Embora estejam ambos presos um ao outro na dança em espiral, I'd rather be cyborg than a godess" (Haraway, 1991 in Ana Gabriela Macedo)...

Arte-teoria? Teoria-Arte?

João O

P.S.: este post deu-me um gozo brutal a fazer. Só pode ser dedicado a pessoas com quem me cruzo, em rede. Pure jouissance! É pois dedicado a minha rede, a todos os pontos que se tocam em fluxos. Para os meus cyborgs.

Publicado por renaseveados em novembro 20, 2004 01:58 AM |
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Comentários

entao joao, ja' aqui foi dito que a arte e' subjectiva e nao so depende do objecto como do sujeito que o admira.
assim tudo podera' ser arte, e porque nao?!
;-)

Afixado por: Opinioes em novembro 20, 2004 02:27 AM

"Great Post", ou melhor, "post-great"! ;)

A ideia de rizoma e de contaminação está presente nas obras de muitos, pensadores (I wonder what that could be...), filósofos e artistas. É uma ideia que se torna cada vez mais clara (trazida à luz) e que abre portas para outras discussões que transitam segundo o "eixo z", numa dimensão de profundidade ou afundamento, positivo ou negativo.

Ps. Pronto, não vos maço mais... ;)

Afixado por: ez em novembro 20, 2004 12:33 PM

Tenho que rever os meus conhecimentos de html... LOL

Afixado por: ez em novembro 20, 2004 12:35 PM

pronto. já me estás a dar trabalho!!!!

Afixado por: ana p em novembro 20, 2004 04:45 PM

Concordo inteiramente ez, o rizoma está cada vez mais presente e cada vez mais actual. A crítica à sistematização tipo raiz, hierárquica, nem se coaduna com uma postura mais crítica da modernidade.

Afixado por: João O em novembro 22, 2004 01:25 AM

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