novembro 02, 2004

Tugofilia


Estimada doutora Renas:

Em primeiro lugar desculpe meu deficiente conhecimento da língua portuguesa.

Quisesse comentar-lhe meu caso. Já faz muito tempo que desejo namorar em Portugal. Mas minhas tentativas são em vão. Não sei que falha exatamente, quiçá você me poderia ajudar.

Faço tudo: Vou a locais noturnos de suas cidades, às cafeterias mais concorridas, aos seus arraiais mais populosos, até a suas dunas mas coincididas, mas nada... o único que consigo é conhecer a militantes ou simpatizantes do PSD; a famosos personagens televisivos (totalmente desconhecidos para mim) que pretendem introduzir-me num carro em plena Avenida dos Aliados com destino indeterminado; a homens aos que lhes gosta vestir-se de mulher (eu que nao gosto nem de metrosexuais!); a homens aos que não preciso perguntar-lhes a idade porque levam “Angola 1973-1975” escrito no braço; a betinhos que não querem ser vistos engatando por medo a que lhes chamem 'puta', ... e o que é ainda pior, a gajos que me confundem com uma mulher espanhola e se afanam por falar-me num castelhano hilariante (tanto como o portugués que eu lhes falo).

Doutora Renas: Não existem verdadeiros homens portugueses, assumidos, bons, decentes e de esquerdas? Onde os posso encontrar?

Depois de várias tentativas frustradas estou desesperada. Poderei em algum dia desfrutar da enriquecedora experiência de viver um romance trans-fronteiriço?

Faltaba dizer que tenho todo preparado: Notícia

Tugófila no Alenminho.

Resposta
Car@ Leitor/a,

Envia-nos uma questão associada a desencontros afectivos. Pelo que percebemos do seu e-mail, pretende conhecer um homem em Portugal com características específicas. Deverá ser verdadeiro, assumido, bom, decente e de esquerda. Apesar das características que enumera serem bastante subjectivas, podemos afirmar que este perfil de homem, que certamente encontrará além fronteiras, não é raro em Portugal. Deverá ser tão fácil encontrá-lo por cá, como por Espanha, França ou em qualquer outro canto europeu… aliás, como outros homens com diferentes conjuntos de características.

A sua questão centra-se principalmente no “Onde?” deixando transparecer alguma desilusão e pouca esperança para os resultados desta busca. Conhecer as pessoas certas para nós depende principalmente de nós e, naturalmente, de alguma sorte. Sendo que a sorte não é um factor que possamos controlar, podemos trabalhar na nossa participação para esse encontro tão esperado.

Embora @ sinta, apreensiv@ não deixo de acreditar que conseguirá atingir o sucesso. Confio também na sua criatividade para encontrar novas formas de conhecer pessoas. Para além de todas as que referiu especificamente no seu e-mail, existirão outras. Isto é, ainda não fez tudo. Dou-lhe apenas mais duas formas de conhecer pessoas.

1. A forma clássica: recorrendo aos nossos amigos. Se temos amigos é natural que alguns deles partilhem os nossos interesses. Muito provavelmente o mesmo acontece com eles, ou seja, têm outros amigos que partilham os seus gostos e estilos de vida. Por exemplo, se pretende um homem de esquerda, poderá conhecer amigos dos seus amigos com as mesmas filiações políticas.

2. Outra forma, quase clássica, nos tempos que correm: a Internet. Na Internet, antes de conhecer pessoalmente as pessoas, pode conhecer os seus interesses e uma parte da sua forma de estar na vida. Relembro que o relacionamento via Internet com alguém é distinto do relacionamento com a mesma pessoa na vida real. De qualquer forma, o número de utilizadores deste meio é cada vez maior. Tem a possibilidade de frequentar salas temáticas onde se encontram pessoas com os mesmos interesses.

Para além destas haverá certamente outras formas de conhecer pessoas. Contamos consigo para dar largas à imaginação e descobri-las.

Relembramos que na vida não há pessoas perfeitas. A ideia mítica da alma gémea, do amor perfeito sem esforço é apenas isso, uma ideia. Não existe na realidade. Os relacionamentos humanos, nomeadamente os de natureza afectiva, são trocas, cedências, uma sucessão de adaptações e desafios. Todos estes desafios exigem trabalho e pró-actividade da nossa parte. Acreditamos em si para os vencer aquém ou além fronteiras.

Muito obrigada pela sua questão!
Muitas felicidades!

Maria Rena

Publicado por renaseveados em novembro 2, 2004 06:13 PM | TrackBack |
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