agosto 04, 2004

Backlash no Público

Fala-se em coisos aqui e aparece logo um dos maiores, que até é director do jornal que leio. O que é profundamente triste, ler um jornal dirigido por um coiso. Entro assim numa espécie de dissonância. Mas só escrevo este post, porque o Miguel Vale de Almeida me alertou para ele, graças a um post. Confesso que os editoriais do Público (que hoje não leva link, que é por causa das moscas), assinados pelo director, agoniam-me até mais não. E como leio o jornal durante o pequeno almoço e se me agoniar perco toda a vontade de comer, acabo por olhar directo para o nome do autor do editorial e se disser José Manuel Fernandes, passo para a página seguinte. Por isso e mesmo lendo o Público diariamente, há coisas que me passam, especialmente se vierem assinadas por este senhor.

Ora, estava eu aqui a gozar de um fim de noite ao som de Lhasa (The Living Road), quando o meu radar disparou ao ver o post supracitado, em que o Miguel regressa à realidade pós-Zamba.

Então não é que o JMF (não repito mais o nome do senhor) hoje resolve apoiar o Papa, na sua nova carta machista, aqui já discutida? A tal que valoriza as enormes diferenças essenciais entre homens e mulheres, que são, claro, valorizadas pela maternidade? JMF, crente nestas diferenças, tal como o director do Expresso (que há uns tempos alegava diferenças comunicacionais e atribuia às mulheres essa característica fabulosa de falarem sem objectivo nenhum), pega então num dos tais estudos que são identificados como "um estudo recentemente realizado numa universidade americana" (que é sempre a melhor identificação do mundo, especialmente porque as universidades não fazem estudos nem são suas autoras, os autores costumam ser investigadores ou task-forces) e partir daí, bora lá bater nas tontas das feministas.

E fá-lo começando então por este estudo em que supostamente (sem conhecer o estudo, e sendo impossível identificá-lo, pelas referências, temos de confiar no JMF, coisa que não faço, por isso, estamos sempre no plano das suposições) o comparsa tinha esta simples tarefa: num bar, dirigir-se a um/a desconhecido/a e convidá-lo/a para ir para a cama com ele/a. Depois contabilizam-se as respostas. Ora 90% dos rapazes abordados por raparigas aceitou e menos de 10% das raparigas, abordadas por rapazes, aceitaram. A partir deste resultado excepcional, JMF começa a falar das diferenças entre os sexos, ligando assim esta estudo não identificado com a carta papal e desenvolvendo o argumento dos gravosos perigos das propostas igualitárias feministas, a saber:

a) os homens trocam as mulheres por raparigas mais novas e acontecem divórcios dolorosos

b) os homens tornam-se mais predadores neste ambiente de "igualdade" (aspas dele)

E o resultado é que as grandes vítimas são as mulheres. E as culpadas as "feministas originais". Bem, e antes não eram vítimas? Trabalhavam por metade do salário, sujeitas à vontade do marido para tudo, declaradas mortas para o contrato social, não-cidadãs, podendo nalguns casos poder ser mortas impunemente se o esposo assim desejasse? Não, antes é que era bom. JMF comete então o erro crasso de dizer que as correntes mais modernas do feminismo defendem a diferença biológica. Isso então é que é mesmo falso. O feminismo diferencialista ou feminismo radical foi uma corrente em voga na 2ª Vaga, advogando a diferença biológica e a excelência da maternidade. Mas, a 2ª Vaga deu-se nos sixties, JMF. Hoje fala-se da construção social da diferença, do género, e dos seus usos políticos (como é o caso do texto deste senhor). E fala-se também do backlash anti-feminista, representado também por este texto de JMF, em que o feminismo leva um ricochete dos meios conservadores que começam a contestar a igualdade, alegando a vitimização que este exerce sobre as mulheres. Esquecendo todo um passado de uma brutal opressão legitimada legalmente. Aconselho a JMF uma leitura da sua colega, Susan Faludi e do seu livro, Backlash, para ver a que ponto o seu texto vai na mesma linha dos textos publicados durante os anos Reagan e Bush Daddy.

E o estudo que JMF cita? Só por grande ingenuidade dos investigadores ou propósitos escondidos dos mesmos, se podem presumir e realizar estudos assim, sem incluir homossexuais. Homens e mulheres. Será que eram iguais os resultados?

E porque não admitir uma explicação dos resultados baseada em diferentes normas de conduta para homens e mulheres, socialmente determinadas? Porque reduzir o fenómeno a esta apreciação fácil?

Pressupor que vivemos em igualdade parece-me perigoso, quando todos os indicadores estatísticos revelam que não, que as mulheres recebem menos, trabalham mais (por efeito da dupla jornada) e são mais punidas socialmente por este tipo de comportamento do que os homens. Claro que não, o que interessa é mostrar é que a igualdade é má, que homens e mulheres são diferentes e que as mulheres são mães e ponto final. E usam-se estas coisas da Psicologia Evolucionista, que se presta a todo o tipo de dirty work, para provar cientificamente a visão republicana do mundo (leia-se USA).

Refuto ainda a última frase em que JMF afirma que o texto papal não reduz as mulheres a uma funcionalidade biológica. Se não as reduz à função maternal, então porque não podem dispor livremente da sua auto-determinação (como todos os homens, dotados de livre-arbítrio) e dos seus direitos reprodutivos? Mesmo que a sua vida esteja em perigo?

Pagan

Publicado por renaseveados em agosto 4, 2004 01:45 AM |
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Comentários

«que hoje não leva link, que é por causa das moscas» --> por acaso não existe o link, não foi parar à versão on-line o tal editorial, e ainda bem!

Afixado por: Boss em agosto 4, 2004 02:12 AM

Excelente post, Boss!

Afixado por: M. em agosto 4, 2004 06:53 PM

Uuuupppssss! Pagan, queria dizer Pagan! Confundi-me com o primeiro comentário...

Afixado por: M. em agosto 4, 2004 06:54 PM

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