A Igreja assume desde o século XIX uma especial vocação em disciplinar as mulheres. Afastá-las da tentação, moldá-las, modelá-las à imagem de uma mulher que é mito e símbolo da suma perfeição. A Virgem Maria, que evolui de uma mera santa para uma mediatrix, entidade de origem humana, mas mantem um título que lhe garante a sua excepcionalidade: Theotokos (Mãe de Deus). Por oposição a um retrato do que as mulheres (para eles) já são: EVA. Pecadoras, alvo do desejo e da concupiscência dos homens. Relembra-se Santo Agostinho, um dos teólogos fundadores com o dictum de que as mulheres são a fonte de todo mal. Apesar da orientação mariana do actual Papa, a Igreja ainda olha as mulheres com estranheza. O que não é estranho tendo em conta que o modelo de Maria é impossível para a maioria das mulheres: serem mães e virgens. Para a Igreja, as mulheres são mães. Como mostram as teólogas feministas, a própria imagem de Deus é masculina, quando para englobar o feminino deveria ser assexuada. Será que este Deus não é também heterossexual?
A persistência da Igreja actual, do ponto de vista de Magistério, emanando documentos que atacam quer as minorias sexuais (veja-se no próprio Catecismo da ICAR, que os homossexuais são convidados a renegar a sua sexualidade, sendo feito um apelo à castidade), quer as mulheres (negando-lhe o direito à sua auto-determinação, em flagrante contraste com o livre-arbítrio de St. Agostinho, em prol de uma suposta vida que a elas cabe providenciar ninho, transformando-as num mero habitat, ausente de auto-determinação), é pois animada de um espírito de exclusão, patente também na negação do acesso das mulheres ao sacerdócio. E contra isto, creio que fiéis, menos fiéis e infiéis como eu se podem e até devem manifestar.
Pagan
Publicado por renaseveados em abril 22, 2004 09:18 PM |