abril 22, 2004

Sex Workers of the World UNITE!

Quando li a matéria que foi capa da última Grande Reportagem só pensava: como é que nunca tinha ouvido falar nesta rapariga antes!? Ana Lopes é uma jovem e brilhante antropóloga portuguesa, que está a desenvolver um trabalho a todos os títulos excepcional, junto dos trabalhadores sexuais de Londres. Na verdade o que ela está a fazer é uma verdadeira revolução. Ao decidir fazer o doutoramento na área do trabalho sexual, ela não se limitou a ser a cientista que observa, adoptando uma nova metodologia, action research, tornou-se ela própria numa trabalhadora sexual, mais concretamente operadora de uma linha erótica. O seu antigo professor Chris Knight, da University of East London (universidade onde se licenciou) não hesita em dizer: "Ela é a melhor aluna de sempre desta instituição.". Diz ainda o professor que "Mais importante do que andar a fazer simples análises académicas, um antropólogo deve estar preocupado em provocar a mudança." e é exactamente isso que Ana faz.

Meses depois de ter entrado para a indústria do sexo, funda o The International Union of Sex Workers que em 2 anos consegue recrutar 200 membros e tornar-se numa secção da GMB (a terceira maior organização sindical do Reino Unido). Ana Lopes é conhecida por conseguir impossíveis, Martin Smith, dirigente sindical, diz "Ela é fenomenal a falar em público. Quando pensei que íamos ser comidos vivos, bastava ouvi-la em palco para perceber que afinal íamos sair dali em braços.". A forma directa de abordar as pessoas faz com que consiga obter os apoios mais inesperados, sejam as feministas da velha guarda do Trade Union Congress, ferozes opositoras de qualquer tipo de exploração sexual, ou os 600 delegados do congresso da GMB, a quem se dirigiu com estas palavras: "Todos nós, nesta sala, já tivemos alguma vez nas nossas vidas contacto com a indústria do sexo." Nem mais, ou não fosse esta uma indústria que movimenta mais de mil milhões de euros todos os anos na Grã-Bretanha.

E que reinvindica afinal Ana Lopes? Nada mais que o justo: protecção legal para os trabalhadores e trabalhadoras contra qualquer tipo de violência; discriminalização da prostituição; contratos de trabalho e acesso integral aos sistemas de segurança social e saúde pública; apoio e assistência em caso de se querer mudar de actividade; e claro, exige Respect!, que é também o nome de uma publicação do seu sindicato.

Bertha

A rapariga é admirável e o seu nome vai dando que falar um pouco por todo o mundo. Em 2005 espera-se a publicação da sua tese numa versão não académica, ao alcance de todos, que será com toda a certeza um best-seller. Entretanto já foi descoberta por Paula Rêgo, tendo sido modelo do Bertha, aqui publicado, e também dos quadros Working Girl (in boots) e Alice, que podem ser vistos aqui. Em 2001 foi considerada a activista pela liberdade sexual do ano, galardão da Erotic Awards. Esperemos que um dia ela possa disponibilizar alguma da sua energia em favor dos trabalhadores sexuais portugueses, entretanto se algum trabalhador sexual me está a ler não deixe de visitar o site do IUSW, e agora apenas para os prostitutos masculinos, dois espectaculares sites de apoio e informação: o Hook (americano, que descobri graças ao Drocas) e o europeu e n m p (European Network Male Prostitution). Estar bem informado é uma das melhores protecções, todos esses sites têm ainda outros links úteis.

Voltando à Ana, tenho que dizer que depois de tudo o que li e fui descobrindo sobre ela, é já uma das minhas heroínas. Tem iniciativa, energia, ousadia, inteligência e um incrível sentido de humanidade. Melhor ainda, já vos disse que ela é do Porto?

Boss [publicado pela primeira vez a 22 de Março de 2004]

Publicado por renaseveados em abril 22, 2004 12:00 AM |
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Comentários

Tmb postei sobre isto. A moça é do Porto e é 1 espactáculo! Uau!

Afixado por: Alex do blog em abril 26, 2004 12:53 PM

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